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19 Jan 2019 20h09

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A estupidez junto com imbecilidade

A união das duas categorias rende um decreto presidencial que vai aumentar ainda mais a insegurança da população, em vez de reduzi-la. Agora, bandidos têm mais uma fonte onde se abastecer de armas.

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Foto: youtube

Inovações perigosas baseadas em suposições furadas recheiam o decreto de flexibilização da posse de armas, que o candidato da bala prometeu em sua campanha eleitoral e acaba de baixar. Entre as suposições mais aberrantes está a de que o dono da arma agora se sentirá muito mais seguro dentro de sua casa. Só se for para se defender da mulher, que não aguenta mais transmissão de futebol pela TV, mas tenho dúvidas se conseguirá chegar a tempo até o cofre.

 

Cofre? Sim, o sujeito terá de guardar o trabuco num cofre bem trancado, com segredo e trava de segurança, juntamente com a munição, se em sua casa houver crianças, supostamente seus filhos, o que ocorre na vasta maioria das residências brasileiras. Não se pode dizer que não pensaram nas crianças...

 

Ou seja, se o ladrão aparecer o dono da casa terá de pedir licença para se retirar por uns momentos, abrir o cofre se já decorou o segredo, ou então pedir mais minutinhos para procurar o raio do papel onde escreveu o segredo, destravar a gavetinha onde guarda o artefato, carregá-lo com a munição que está na outra gavetinha travada, e finalmente adentrar o salão com o trabuco na mão. Se o ladrão tiver paciência de esperar todo esse tempo, há de ficar surpreso com a aparição do dono da casa e entregará imediatamente seu fuzil Fal-15, borrando-se de medo.

 

É essa a cena do crime imaginada por quem redigiu o decreto. Não dá nenhuma chance ao bandido de logo de cara trancafiar todo mundo no banheiro –se for gentil –, estuprar a dona da casa e depois estourar a fechadura do cofre com um ou mais balaços de fuzil. Não, nossos bandidos são gente boa e não vão fazer nada disso, muito menos estragar o decreto presidencial com ações fora do roteiro.

 

Outra suposição aberrante é que a partir de agora o bandido vai pensar duas vezes antes de entrar numa casa, por supor que o dono tem um trabuco guardado no cofre. Putz, eles que estão acostumados a travar duelos de faroeste com a polícia e matar policiais a uma taxa crescente e horripilante, vão estancar diante da casinha do cidadão? Não se detêm nem diante da mansão do milionário com guarita a prova de bala.

 

Para começo de conversa, “o” bandido não existe. O que existe são “os” bandidos, todos marombados e bem armados. Quando não entram todos juntos, dois tomam a frente e os outros ficam no carro estacionado do outro lado da calçada.

 

Nas fazendas é ainda mais fácil. Dividem-se em dois grupos e enquanto um atrai a atenção pela frente, o outro vai por trás da casa principal. Os cachorros já foram devidamente envenenados e o campo está livre. Pode ser que um ou dois sejam atingidos pelo pessoal da fazenda, mas não é o que acontece na prática. O mais comum, fortemente comum, é que levem tudo, inclusive máquinas e tratores. Aliás, nas fazendas já era permitida a posse de armas e até o seu porte dentro do propriedade. O decreto aí não fede nem cheira.

 

Não é com leis assim que vamos melhorar a segurança da população. Esse decreto só vai piorar as coisas. Agora, “o” bandido vai aparecer supondo não o que a bancada da bala imaginou, mas que dentro da casa tem uma arma novinha em folha para levar, fora o resto. Ninguém vai estar atrás da cortina da janela à espreita do bandido, como nos velhos filmes de faroeste. Isto porque bandido não chega de sirene aberta, como a polícia, nem avisa que vai estar na cidade ao meio-dia para assaltar o banco. Viram filmes demais em Hollywood.

 

O decreto só vai induzir à resistência ao bandido, coisa que os especialistas em segurança são unânimes em desaconselhar, aqui e em qualquer parte do mundo. Se seu bairro é inseguro, o melhor a fazer é um panelaço na hora do Jornal Nacional para exigir das autoridades uma vigilância forte, com unidades móveis circulando ou mesmo um posto móvel na entrada do bairro. O decreto baixado pelo presidente da bala só serve para tirar a responsabilidade pela segurança do Estado e transferi-la para o cidadão, justamente a parte mais fraca da equação e que, por ignorância, caiu na conversa deles.

 

A lei que eu queria no lugar desta seria exatamente o contrário: a proibição total da venda de armas para a população e a intensificação da vigilância nas fronteiras, portos e aeroportos, principalmente estes, que são a maior porta de entrada de armas e munição ilegal no país. É incrível que aeroportos como os de Cumbica e Galeão, os dois maiores do país, sejam um queijo suíço para contrabandistas de armas dos Estados Unidos, onde a compra é livre e o envio, também.

 

Aproveitando a forte amizade que dizem toda hora ter, o presidente da bala e o diabo loiro americano poderiam fazer um acordo para zerar o contrabando de armas de lá para cá. Os EUA são o maior ou um dos maiores exportadores ilegais de armas do mundo. E o Brasil um dos maiores importadores.

 

Interessa?

 

Nelson Merlin

Editor e diretor de Redação em jornais de São Paulo, Rio de Janeiro e Paraná

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