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30 Jan 2019 12h18

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Um frio gelado em Davos

O presidente brasileiro é recebido nos recintos aquecidos de Davos com o mesmo frio que faz lá fora. Seu discurso não esquenta os investidores e ele foge de encontros que podem ser constrangedores.

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Foto: LaRegione

Andam falando mal do Bolsonaro em Davos. O pior de tudo, para os estrangeiros, é que o Brasil não mereceu mais do que 6 minutos e meio de discurso do seu próprio presidente, que tinha 45 à disposição para falar e vender seu peixe. Ficou a impressão de que o Brasil não vale tudo que deveria para seu presidente. Como é que pode valer algo mais para os investidores?

 

Por aqui, os devotos estão em polvorosa. Dizem que discurso não serve para nada, bom mesmo é fazer e tá acabado. Tá bom, mas então para que foi a Davos? Não foi para atrair investidores, para dizer que a confiança voltou e que seu governo tem muitos planos para fazer o Brasil crescer? Cadê os planos, cadê tudo? Não teve uma linha no discurso sobre onde investir, que condições vão encontrar os investidores etc. Falou de improviso, enrolado num sobretudo – fazia 25 graus Celsius no recinto, que é aquecido para o inverno – e deixou a impressão de que não queria nem incomodar os presentes nem gastar muito tempo para não perder o trem que ia sair em seguida.

 

A reação do distinto público ao discurso foi gélida. Os estrangeiros não sabem, mas o pessoal da bancada da bala no Congresso Nacional brasileiro está sempre assim, com pressa de puxar o gatilho. Esse presidente tem má dicção, fala arrastando a sola do sapato no chão, parecendo touro enfurecido em rodeio de Barretos. Felizmente, estava controlado e emocionalmente firme. Mas os frequentadores de Davos não estão acostumados a esse tipo de desempenho, muito retórico e pouco prático.

 

E se ouvissem o que tem a dizer o filosófico ministro das Relações Exteriores sobre a planitude da Terra (não confundir com plenitude), o mal das vacinas e a influência marxista na alfabetização das crianças brasileiras (tema preferido de outro colega, que não foi a Davos), não sei o que aconteceria na plateia. Só posso imaginar gente se levantando para reclamar na portaria.

 

O desempenho de nossos bravos representantes da indústria da bala é decepcionante para os europeus, asiáticos e investidores de outras procedências. Eles querem saber onde estão as melhores oportunidades de aplicar seu gordo capital, e pouco se interessam por palavras de ordem, como Deus Acima de Todos, e propaganda de campanha eleitoral, como Pela Primeira Vez na História Temos um Ministério Técnico, Não Político e Sem Corrupção. Isso causa estranheza por lá. Todo governo é político e nenhum governo está livre de corrupção por, supostamente, não ter políticos no primeiro escalão.

 

Por aqui, muita gente bate palma e pede bis nas redes sociais. Os devotos do Bolsonaro estão pensando que presidente da República e time de futebol são a mesma coisa, ele jogando no campinho e a torcida gritando na arquibancada. Investidor não faz assim não. Investidor quer argumentos, planos concretos para analisar, prazos definidos para começar e acabar, taxas de lucro e retorno temporal do investimento. É isso que conta, e Bolsonaro não contou nada, não deu dicas nem acenou com planos futuros. Deu uma volta olímpica no auditório, sem se comprometer com nada que interesse –, fora o respeito aos contratos, como se essa fosse a principal virtude dos negócios no Brasil.

 

Desmarcou almoço com a presidente do FMI, foi almoçar sozinho num bandejão, depois almoçou numa mesa em que não conversou com os vizinhos, desmarcou encontro com investidores, desmarcou entrevista à imprensa. Parece que foi lá só para desmarcar. Parece estar com medo de ser indagado sobre o tal Queiroz e o filhote mais velho e campeão de votos ao Senado, que demonstra ter sérios problemas de articulação com o sistema bancário brasileiro.

 

O indigitado não sabe que é mais simples do que parece fazer um depósito em dinheiro na boca do caixa humano do que na máquina do caixa automático. Não contaram para ele que na boca do caixa tem maquininha que conta a bufunfa num piscar de olhos, e que boca do caixa é uma expressão que não significa que o pobre bancário está ali de boca aberta pronta a engolir o dinheiro do cliente.

 

Quanto mais eu rezo pela salvação do Brasil, mais assombração me aparece. Não é que o já diplomado senador disse que não tinha tempo de ir ao caixa humano? O dinheiro estava com ele havia meses, e aí resolveu fazer envelopes um a um, botar 2 mil reais em cada, preencher o frontispício (sim, pessoal, tem frontispício, quer dizer, a frente do envelope, em que o sujeito tem de escrever números e mais números), inserir o cartão na máquina, dar uns tapas na dita cuja para ela funcionar, digitar senha, abrir a conta, digitar o valor e, após outras peripécias, finalmente introduzir o envelope na ranhura, confirmar e fechar a tela. Tudo isso repetido 48 vezes!

 

É mole?

 

Mas acho até que o presidente se saiu bem, desmarcando tudo. Ia ser moído por seus interlocutores com perguntas insólitas sobre o funcionamento de nosso sistema bancário. Sem esquecer que ele mesmo mandou o Queiroz depositar dinheiro na conta da primeira-dama porque, alega, não tinha tempo de ir ao banco pegar o dinheiro. Putz, só nos meados do século passado, quando não tinha DOC nem TED, o cidadão tinha que ir ao banco assinar papéis para receber dinheiro em seu nome. Não é só o filhote que anda desinformado.

 

Tem mais, principalmente na seara policial, mas vou ficar por aqui. Não sem antes lembrar à famiglia que seus rolos com o sistema bancário nacional não foram descobertos pela imprensa, mas pelos órgãos públicos que agora estão sob o comando do novo governo. Um deles, o Coaf, responde às ordens do ministro da Justiça, o imaculado ex-juiz da Lava Jato, que se encontra acompanhando o papa em Davos. É daí que vêm as informações que a imprensa toda divulga. Não é campanha difamatória, como alega o nervoso filhote mais velho, mas fatos sobre os quais o Coaf e o Poder Judiciário têm a obrigação legal de receber explicação cabível.

 

Somente isso, senhores. Fatos. Explicações cabíveis. O resto é esperneio de malandro na delegacia.

 

Nelson Merlin

Editor e diretor de Redação em jornais de São Paulo, Rio de Janeiro e Paraná

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