articel-img

30 Jan 2019 12h21

articel-img articel-img

Chance perdida em Davos

O Capitão falou como se estivesse perfilando a tropa para fazer o discurso do século. Mas o que a montanha pariu foi um ratinho que ninguém gostou. Azar o nosso, que deixamos de vender nossas joias.

img
Foto: Bergfex

Enquanto um bambino se suja cada vez mais no parquinho, os outros parecem ter perdido o embalo para brincar e o papa ensaia um “não estou nem aí”, o general Heleno –espécie de zelador do quarteirão – corre a dizer que o governo não tem nada com isso e, no dia seguinte, depois de o próprio papa anunciar que se errou o filho terá de ser castigado, o general corrige-se para afirmar, mais republicanamente, que tudo tem de ser investigado. O ministro da Justiça endossou publicamente a primeira declaração e submergiu na segunda.

 

Esse vai-e-vem de playground na pracinha da esquina quer passar ao distinto público a falsa impressão de tranquilidade. As crianças estão brincando e a paz é uma benção dos céus, mesmo com dólar em alta, bolsas em queda e Davos batendo palmas chochas e protocolares ao discurso de abertura relâmpago do Capitão, como se estivesse num palanquinho falando a uma tropa de soldados de chumbo.

 

Diante dele estava o extrato, a essência, o suprassumo do capital internacional, ávido por direcionar seu ouro a lugares em que possa multiplicar-se e todos serem mais felizes. Mas nosso bravo capitão encarou-os friamente, o olhar duro de sempre, a cabeça balançando pra lá e pra cá como se estivesse procurando o rumo, os olhos batendo de um lado a outro nas órbitas profundas de seu crânio inescrutável.

 

O que será que o capitão estava pensando enquanto as palavras lhe saíam da boca como tropas de cavalaria em dia de desfile militar? Será que tinha noção de onde estava realmente? Será que não podia ao menos encerrar o miserável discurso com algo melhor do que o tal Deus Acima de Todos?

 

Será que, em vez de dizer que herda um país na mais profunda crise de sua história – o que é para espantar até investidor de padaria –, sua excelência não poderia ter exaltado nossos nichos de mercado mais promissores, como os grandes parques eólicos que se propagam majestosos pelo Sul e o Nordeste do país e são a energia do futuro que já se faz presente em todos os continentes?

 

Uma só torre daquelas, de 2 MW, é capaz de gerar energia para centenas de casas e fábricas, empregos para engenheiros, eletricistas e operários, com um investimento de míseros 2 milhões de dólares, se tanto.

 

Só na mesa em que o Capitão comeu numa daquelas noites – e comentou depois se seus companheiros não tinham visto quantos pobretões havia em volta dele – estavam ali ao seu redor gente que pode arrecadar cem mil vezes mais do que isso num piscar de olhos. Sim, senhores, 200 bilhões de dólares num piscar de olhos. Jamais o Capitão viu tanta dinheirama junta em forma de gente, do lado dele, chegadinhos, era só encostar mais um pouco e tascar: “Olha aqui, pessoal, eu tenho um negócio da China pra vocês no Brasil. É pegar ou largar”.

 

Eu tenho a certeza, absoluta convicção, que os presentes iam largar pratos e talheres pra lá e se amontoar em cima do Capitão para saber que maravilha é essa. E ele poderia, tranquilamente, num estalar de dedos, como um mágico no circo, chamar um assessor e deitar sobre a prataria os belos e bilíngues Atlas de Energia Eólica que quase todos os Estados brasileiros possuem, com imagens magníficas de parques eólicos fantásticos, reais e concretos, em carne e osso, espalhados de Pelotas a Fortaleza e além, por todo nosso imenso litoral de 8 mil quilômetros de ventos alísios constantes e praias paradisíacas.

 

“Plantem torres. E para cada uma delas nós daremos a vocês um terreno vazio da União para fazerem um resort de primeiro mundo e alavancar nosso turismo às alturas, além de nos garantir energia elétrica para sempre”.

 

Não seria muito melhor, prático e objetivo, um discurso nesses termos do que invocar o deus da campanha e da dona Damares? Para gente que tem a cabeça em outro lugar e foge como o diabo da cruz de todos os tipos de fanatismos, nacionalismos e outras esquisitices? Não seria melhor do que apontar os dedos para dar tiros de mentirinha? Ou mesmo tiros de verdade?

 

O que querem? Eu faço minhas orações todos os dias para que tudo dê certo, apesar de tudo, e o que me dão em troca são palavras vazias, gestos truculentos, acompanhados de falsos sorrisos, carícias nos milicianos das favelas cariocas, retrocessos inconcebíveis na Educação, lunáticas teorias conspiratórias no Itamaraty, no Meio Ambiente, na Educação e no Ministério da Família, a escuridão que desce como breu sobre a reforma da Previdência e os planos metafísicos do super Ministério da Economia.

 

E como se fosse pouco, no mesmo momento aqui por essas bandas, a dona Damares é lembrada por adeptos de ter feito grave advertência aos seus ouvintes, dedinho em riste, tempos atrás, sobre a masturbação de bebês pelos próprios pais na Holanda! Uau!!! A Holanda já cobra explicações e podemos estar diante de nossa primeira crise internacional...

 

Um governo assim nem precisa de oposição para se dissolver como açúcar no mate, minha bebida preferida no verão dos trópicos. Tem gente, mais abaixo, que gosta de chimarrão amargo bem quente no mais quente dos verões. Eu gosto de mate gelado. Tem gosto pra tudo.

 

O que eu não gosto mesmo é de incompetência e maluquice. E, principalmente, de jogar ao vento minhas pobres orações.

 

Nelson Merlin

Editor e diretor de Redação em jornais de São Paulo, Rio de Janeiro e Paraná

Próxima Artigo

30 Jan 2019 12h27

O treinado elevador

Santos passa de passagem pelo São Paulo, passou elétrico como é estilo de seu treinador. Navarras era como Sampaoli, elétrico e vencedor, foi J.Hawilla que lançou câmera nos técnicos. Quer saber? Leia

Últimos artigos