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02 Fev 2019 00h07

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SOB DOMÍNIO DO CRIME

Não temos somente bandidos nas cadeias e nas ruas. Também temos bandidos nas salas refrigeradas de grandes corporações. Gente boa e bem formada. Mas que não hesita em pôr a vida dos outros em risco.

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Arte: google

Os atentados no Ceará pouca diferença têm para o atentado ambiental de Brumadinho, a não ser pelos métodos utilizados. No Ceará, os passageiros de ônibus e os clientes de postos de combustíveis são avisados a sair pelos bandidos antes de atearem fogo em tudo. Em Brumadinho, não deram essa chance às pessoas. Não se trata de uma tragédia, mas de um crime anunciado.

 

O descaso pela vida alheia e o meio ambiente está presente num número espantoso de empreendimentos Brasil afora, e permeia toda nossa História. Uma história de crimes ambientais e crimes contra a pessoa e o patrimônio ocultos sob a capa do empreendedorismo das grandes organizações e do Estado mastodôntico que tudo pode. E como o mau exemplo vem de cima, para baixo é a mesma coisa: a despreocupação ambiental vai do simples copinho de plástico que entulha e mata os rios e oceanos até a poluição de chaminés e escapamentos letais que matam as pessoas lenta e covardemente, sem que ninguém perceba.

 

Vivemos aqui os tempos da Idade da Pedra do capitalismo industrial, sob os auspícios do Estado e em nome da prosperidade. E por mais incrível que tudo pareça, temos as leis ambientais mais modernas do mundo e uma Constituição Federal que em dezenas de artigos consagra o meio ambiente e a vida como valores fundamentais da nação.

 

Somos belos na aparência e podres por dentro. São chocantes as imagens de antes e depois de Mariana e Sobradinho. Era tudo tão belo e bucólico, tão organizado e aparentemente feliz, os rios tão doces e cheios de vida, enquanto as entranhas das barragens cozinhavam seus ingredientes tóxicos no fogo brando da incúria, do atraso e do descaso, até vomitarem o paredão de lama letal morro abaixo. Não são de tragédias, são de homicídios qualificados os retratos da devastação.

 

A pergunta que todos fazemos é até quando? Até onde? Há centenas de barragens espalhadas pelas Minas Gerais e o Pará, nossas maiores províncias minerais, e por outras partes do país como a mesma letalidade. Ouvi dizerem que os processos à montante – em que a própria lama faz a barragem, com a adição de pedras junto à parede, e à medida que enche o reservatório a barragem vai subindo até alturas inacreditáveis – são usados em todo o mundo. É mentira. Não são mais usados. Há muito tempo o processo mudou para compactação a seco, retirando-se toda a água. A lama vira pedra, que em seguida é triturada e levada a outros fins, inclusive para a produção de tijolos.

 

Naturalmente, um processo muito mais caro. Naturalmente, um processo sem nenhuma letalidade. E por isso desprezado aqui. Porque aqui é onde o crime compensa. Quem foi punido por Mariana? Quem recebeu indenização por ter tudo de seu destruído? Quem ressuscitará o Rio Doce? Quem trará de volta as vidas assassinadas, às quais agora se somam centenas de corpos despedaçados em Brumadinho?

 

Tragédias são terremotos, tsunamis, vendavais e chuvas torrenciais. Desabamentos de barragens são crimes oriundos de processos criminosos, de atentados que se cometem fazendo contas em computadores sobre ganhos e perdas, e sobre cujos cálculos se debruçam senhores executivos que vão decidir sobre quanto Vale a vida a jusante. A conta é de Risco x Benefício. Quanto menor o primeiro, maior o segundo. Pouco importa se um risco de 0,01 represente a morte de 500 pessoas, porque um risco de 0,01 não existe, até que acontece. Uma barragem 99,9% segura não é segura. Se para a iniciativa privada é, não pode ser para o Estado. Ainda mais existindo processos em que o risco para a vida humana e o meio ambiente é zero.

 

Há muito se ouve falar neste país que as leis ambientais só servem para atrapalhar. Vivo, no momento, em um enclave de fazendeiros para os quais a simples obrigação de manter matas ciliares e faixas de segurança ambiental em torno delas é crime de lesa pátria. E todos, quase todos, são boa gente! Dizem que não há quem conserve melhor a terra do que eles, porque é seu ganha pão. Por que iriam destruí-la? É porque se nossa inteligência é finita, a ignorância é infinita e se entranha até os ossos, saindo em sorrisos pelos lábios. Vão dizer e repetir a mesma bobagem até que todos acreditem ou até que comecem a perder dinheiro.

 

Hoje, o melhor investimento do agronegócio não é a compra de fertilizantes para dobrar a produção. O melhor investimento é a preservação. A pressão ambiental do exterior sobre o Brasil já é grande há muito tempo e por isso temos as leis de proteção mais modernas do mundo. Não é por mérito próprio, mas porque o mundo ficou exigente com o que come e com o que bebe. E se é verdade que o cliente sempre tem razão, mais motivos deveríamos ter para entregar-lhe o melhor.

 

Fertilizantes e defensivos naturais estão saindo de laboratórios ambientais aqui mesmo, no Brasil, tão eficientes que vão produzir uma nova revolução no agronegócio. Em poucos anos, as sementes transgênicas estarão obsoletas. Idem para os fertilizantes e defensivos químicos que precisam de robôs, não da mão de obra do campo, para acertar a quantidade exata por centímetro quadrado diluído em mililitros de água. O cliente “Mundo” não vai mais querer, sabendo que outros processos podem entregar comida e bebida com risco zero para sua saúde.

 

Risco zero é a chave. Se não é zero pode matar, aleijar, estragar para sempre a saúde em alguma proporção percentual, e ninguém quer ser o próximo. Eu tomava remédio para pressão alta que podia ser letal em um percentual que agora não lembro, mas que era baixíssimo, algo como 1 em 10 mil. Mas eu não quis ser a exceção. Parei de tomar, tomo só uma bebida composta de vinagre, água e mel, uma gororoba inventada e testada durante 5 anos por pesquisadores de uma universidade britânica. Seu efeito é o de dilatar veias e vasos, dissolver as placas de gordura, reduzir o colesterol e fazer o sangue fluir livremente. Aviso se der resultado. Até agora, em dois meses de gororoba sem remédio, tudo bem. Pressão 12 x 8, às vezes 13 x 9, no limite. Daqui a um ano a gente se fala.

 

Tomei essa decisão porque viver neste país é um risco máximo. Para que correr mais um? Dos bandidos nas cadeias e nas ruas aos executivos engravatados em suas salas refrigeradas, todos preparam alguma coisa que não vai me fazer bem. E acima de todos paira um governo inoperante para quem não valho um tostão – ao contrário, só dou gasto, primeiro na aposentadoria e depois, quando eu estiver mais velho, no SUS. O atual fez campanha demonizando o licenciamento ambiental, para eles um atraso nos negócios. Agora estão quietos, o máximo que falam é do excesso de burocracia, sem dizer o que pretendem fazer para reduzi-la. Abreviar etapas? Como o que rebaixou Brumadinho, anos atrás, do grau 6 (o máximo de risco) ao grau 4, para permitir o reaproveitamento do lodo na produção de mais minério?

 

Vivemos cercados de gente mal intencionada ou ignorante. Todo cuidado é pouco. O que eu espero é que esse novo governo não cause mais males do que o que prometeu em sua campanha, e que a terrível verdade dos fatos o faça voltar atrás nos seus piores pensamentos.

 

Nelson Merlin

Editor e diretor de Redação em jornais de São Paulo, Rio de Janeiro e Paraná

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