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13 Fev 2019 22h01

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O riso de Boechat

Quando um inspirador se vai, a sensação que deixa é a de um imenso vazio. Sua morte torna mais difícil viver sem ouvi-lo sobre o que nos espanta ou fere a razão. Mas seu riso é a nossa esperança.

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Boechat foi uma inspiração. Uma grande inspiração. Todo inspirador deixa um vazio quando se vai, e o tempo acaba um dia fazendo-o desaparecer, como o sol e o vento dissipam o nevoeiro. Mas quando ele é dos grandes, o vazio se torna abissal e perene. O rádio e a TV, mais aquele do que ela, estão vazios. Perenemente vazios. Em compensação, quando se vão, os grandes inspiradores tornam-se eternos.

 

Ele será lembrado por todos de sua geração e uma legião de admiradores de todos os gêneros e idades, que prolongarão por décadas a sua lembrança e seu espírito entre nós. Boechat tinha muitos milhões de seguidores nas duas maiores cidades brasileiras, um mar de gente que não cabe na Baía de Guanabara que tanto amava. Desbordando a Baía, lança-se em alto mar. Boechat tinha um oceano de seguidores. Sua coragem, sua valentia no dizer e no falar o que as pessoas sentem estar pensando, mas não conseguiriam formular melhor do que ele pois lhes faltam palavras para expressar o que transita em seus corações e mentes, tornaram Boechat um mensageiro dos que não tem voz. Um formulador. Suas palavras pareciam escritas no ar e ele somente as lia, interpretando-as como no teatro fazem os grandes atores.

 

Não é difícil afirmar que seu palco preferido era o rádio. Sua presença era firme e forte na TV, mas no rádio ele era arrasador. O rádio é voz e teatro mais do que a TV, que é um meio frio sem deixar de ser chocante, mas que se dispersa entre o áudio e a imagem. Embora lhe confiram uma força descomunal, o áudio e a imagem juntos dividem a atenção. No rádio, porém, o som não se divide com nada a não ser consigo mesmo e a força das palavras, que se juntam sólidas e unívocas para impactar com a violência de canhões os sentidos do ouvinte.

 

Boechat era um canhão radiofônico. Seu timbre agradável de barítono pausado, sem falhas ou vacilos na busca da melhor palavra – porque não as buscava, elas vinham prontas e de pronto acorriam a ele –, tinha o poder de transportá-las como pacotes de energia até o fundo de nossos ouvidos, corações e mentes. Passava certeza, veracidade. A leitura de suas palavras pelos ouvintes nas primeiras horas da manhã tornou-o um irmão inseparável de todos, pelo dia todo e todos os dias. Certeiro, veloz, implacável e sem papas na língua. Um fenômeno de oposição política sem ser populista, demagogo ou sectário defensor de ideias próprias ou alheias. Ele era como todo jornalista deve ser, procurando sempre a imparcialidade, mas sem perder jamais o senso crítico e a palavra dura e ácida, quando esta se impunha.

 

Sua inteligência o levava a um campo de batalha em que ele era mestre e os demais, aprendizes. Mas contrariamente a outros mestres, dedicava-se permanentemente ao aprendizado, raramente fechava questão em alguma coisa, deixando sempre aberta uma porta ao diálogo, ao contraditório, ao livre trânsito das ideias. Isto se via e se ouvia, fosse ele o autor de um editorial ao vivo e a cores ou o mediador de um debate. Sua conduta era exemplar.

 

Mas como que para quebrar tanta perfeição ou nos dar um recado, Boechat mostrou-nos que rir é o melhor remédio. Suas gargalhadas não tiveram paralelo nem no vídeo, nem no rádio. Suas brincadeiras não poupavam nem a ele mesmo, um irremediável gozador dos outros e de si mesmo. Poucas vezes tivemos a oportunidade de ver na televisão o aparelho bucal e dentário de um protagonista com tanta efusiva profundidade, quando Boechat abria sonoras e sinceras gargalhadas que em outros pareceriam forçadas ou puramente exibicionistas. Vinham de dentro e escancaravam um espírito peculiar e nobre. Ria de si mesmo como nós rimos de outros. Essa qualidade do riso feliz de si mesmo não tem igual na maior parte da humanidade.

 

Vão se passar dezenas, talvez centenas de anos até que outro Boechat apareça das nuvens para novamente trilhar os caminhos deste mundo com a mesma leveza, o mesmo humor, a mesma retidão de caráter e propósitos, a mesma voracidade de detonar os absurdos que se interpõem no seu caminho. Afinal, caminho de todos nós – que agora nos encontramos mais sós num mundo que, sem sua voz e seu riso, ficou mais vazio. Que ele, onde quer que se encontre em outras alturas, não ria de nós. Mas de nós se compadeça. Não como os santos, mas como um mortal que viveu todas por aqui e a todas venceu.

 

Boa viagem, Boechat. Um dia, talvez, eu consiga chegar aí e te dar o abraço que tantas vezes eu quis te dar ao te ouvir desancar os fantasmas de carne e osso que nos assombram, dia e noite, neste lugar de tantos amores e tanta dor. E quando esquecerem de tuas palavras, que os ventos gostam de levar aonde não podemos mais alcançar, com certeza não esqueceremos do teu riso.

 

Nelson Merlin

Editor e diretor de Redação em jornais de São Paulo, Rio de Janeiro e Paraná

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