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02 Mar 2019 20h29

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Roberto Avallone. Exclamação!

Avallone era criativo. Ousado. Abusado. Bem informado. Independente. Inédito. Diferente. Tudo o que um bom jornalista precisa ser. Exclamação!

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Foto: Gazeta Press

Avallone era criativo.

 

Ousado.

 

Abusado.

 

Bem informado.

 

Independente.

 

Inédito.

 

Diferente.

 

Tudo o que um bom jornalista precisa ser.

 

Aliava tudo isso a uma boa dose de vaidade e uma certa insegurança que, muitas vezes, o levava a tomar atitudes até arrogantes. É a velha lição do futebol: a melhor defesa é o ataque.

 

Na madrugada dessa segunda-feira, 25 de fevereiro, Avallone publicou sua última coluna no portal Uol. Comentou os jogos do fim de semana e sugeriu que os times contratassem treinadores especiais para os atacantes, assim com tem para os goleiros.

 

Um ataque cardíaco fulminante levou Roberto Francisco Avallone.

 

Conheci o Roberto Avallone em 1968, quando cheguei de Belo Horizonte para trabalhar no Jornal da Tarde.

 

Poucos dias depois, estava num restaurante ao lado da redação (na época, o a redação do JT/Estadão ficava à rua Major Quedinho, 28, no centro da cidade), quando o Avallone chegou, colocou as mãos nos meus ombros e disse em alto e bom som para os outros companheiros que estavam à mesa:

- Eis aqui o meu futuro chefe.

 

Foi irônico, mordaz e cabe aqui a explicação.

 

Naqueles primeiros anos de Jornal da Tarde (foi às ruas pela primeira vez no dia 4 de janeiro de 1966) havia muitos mineiros na equipe e a grande maioria ocupando cargos importantes. O redator chefe, por exemplo, era o mineiro Murilo Felisberto.

 

Avallone quis dizer, portanto, que eu estava fadado a ser chefe. Minha principal qualidade: ser mineiro.

 

Levei a ironia numa boa. Mas, anos mais tarde a profecia se realizou e eu me tornei chefe do Avallone.

 

Naqueles primeiros anos de São Paulo fiz forte amizade com dois outros repórteres do JT: Avallone e Luiz Carlos Ramos.

 

Luiz Carlos, mais tarde, foi para o Estadão e minha amizade com o Avallone se consolidou.

 

Avallone era meio genioso no trato, mas de caráter imaculado.

 

Nossa amizade cresceu cada vez mais, envolvendo até mesmo as famílias. Maria Clara, esposa do Avallone, tornou-se uma boa amiga da Vera Marinho, minha caríssima metade.

 

Caio Avallone e a minha filha Verênia frequentaram, quando crianças, a Escolinha de Esportes da Hebraica, grata novidade naquele começo dos anos 1980. Anos mais tarde, eles se encontraram na Faculdade e trilharam o mesmo curso de Comunicação.

 

Avallone foi um excelente repórter e depois passou a redator, sem jamais perder o seu faro e seu espírito de repórter.

 

Nessa época, eu também havia pulado da reportagem para o trabalho de copy-desk.

 

Alguns anos depois, eu assumi o comando da equipe de esportes do JT. Eu era o editor e o Avallone era sub-editor, acumulando a criação da pauta e a chefia de reportagem. Profecia, portanto, realizada.

 

Alberto Helena Jr. era o colunista do esporte. A coluna dele, “Bola de Papel” era publicada diariamente.

 

Às vésperas da Copa do Mundo de 1982, Alberto Helena deixou o JT e foi para a revista Placar.

 

Escalei o Bob Avallone para substituir o Helena e aí nasceu a prestigiosa coluna dele: “Jogo Aberto”. Avallone continuou na pauta.

 

Modéstia às favas, fazíamos o melhor jornalismo esportivo do Brasil.

 

Prova disso foram os prêmios Esso que nossa equipe conquistou (o Prêmio Esso era o Oscar do jornalismo), além de diversos Troféus Ford Aceesp.

 

Foram incontáveis os furos dados por essa equipe.

 

O maior deles, sem dúvida, foi do Avallone.

 

Poucos meses após da Copa de 1982, um apavorado Roberto Avallone chega à redação do JT à minha procura. Sua presença na redação à noite já me deixou meio intrigado, já que o trabalho dele era durante o dia. E mais intrigado ainda seu jeito de falar quase sussurrando me chamando a um canto da redação.

- Marinho, tenho um furo.

- Sim...

- Ainda não posso revelar a fonte, Você vai ter que confiar em mim. Certo?

- Certo, vamos lá.

- O Palmeiras contratou o Batista.

- O Batista do Grêmio???

- Esse mesmo, mas ele só vai se apresentar daqui três dias.

- Mas, podemos publicar amanhã, não é?

- Isso mesmo.

- Então, vá para a máquina (era tempo ainda da máquina de escrever, não havia computadores).

 

O redator chefe era o Fernando Mitre. Dei a ele a notícia do furo.

 

No dia seguinte, nossa manchete foi: “Batista no Palmeiras”.

 

O Jornal da Tarde era muito respeitado pelo seu jornalismo sério, inovador e pelos furos constantes.

 

Foi um auê no meio esportivo. O Palmeiras negou. O Grêmio não quis falar sobre o assunto e Batista não era encontrado.

 

No dia seguinte, apesar da incredulidade de outros veículos da imprensa e de muitos até colocarem em dúvida a notícia, o Jornal da Tarde voltou a reafirmar a negociação. E mais: anunciamos que no dia seguinte Batista chegaria a São Paulo.

 

Não deu outra: Batista chegou. O grande furo do Jornal da Tarde/Roberto Avallone foi confirmado.

 

Avallone também trabalhou no rádio e na televisão. Aliás, trabalhamos.

 

Antes de ocuparmos cargos de chefia, tivemos passagem pelo jornal Última Hora e pela revista Bannas, uma publicação voltada para a área econômica.

 

No rádio, trabalhamos juntos na rádio Eldorado.

 

Depois, Avallone foi para a Tv Gazeta e, aí invertemos os papéis: no Jornal da Tarde, eu era o chefe dele; na Gazeta ele era o meu chefe.

 

Na televisão, a criatividade do jornalista Roberto Avallone encontrou campo fértil.

 

Seu jeito apaixonado, incisivo, às vezes até agressivo conquistou o público.

 

Ali, ele verbalizou a pontuação quando, com gestos dramáticos e a voz carregada ele enfatizava suas afirmações:

 

“O Palmeiras foi brilhante. Exclamação!”

 

“Quem vestirá a camisa dez do Verdão. Interrogação!”

 

O Palmeiras foi uma grande paixão. Não a maior de todas: essa imensa paixão era dedicada à família. Aos filhos principalmente.

 

Assisti, certa vez, discussão feroz, fora do ar, com Nelsinho Batista, então técnico do Palmeiras. Tudo porque o Palmeiras havia perdido um jogo e o filho, Caio Avallone, pouco mais que um garoto, foi às lágrimas.

 

Tentei acalmar o Avallone, mas ele, enfurecido, não permitia:

- Ele fez o meu filho sofrer, chorar. Eu não perdoo isso.

 

Era o lado apaixonado de Roberto Avallone.

 

Havia também o lado vaidoso.

 

Como ele não gostava de falar a idade com ninguém eu dizia que era mais jovem que ele. Não era verdade, mas proporcionava boas discussões. Eu falseava os números e dizia pra ele:

- Você nasceu em fevereiro, eu nasci em novembro. Portanto, se Você faz aniversário antes de mim, Você é o mais velho. Exclamação!

 

No dia 22 de fevereiro, há três dias, portanto, foi aniversário dele. Completou 72 anos certamente guardando seu precioso segredo. O Facebook registrou o niver e me enviou a mensagem: cumprimente o seu amigo.

 

Deixei a seguinte mensagem:

- Avallone, Você continua na minha frente.

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