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02 Mar 2019 20h45

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Mais uma do colombiano

É preciso que os militares do Planalto deem um sossega leão nesse colombiano que responde pelo Ministério da Educação. Escola não é quartel, señor. E nem nos quartéis há mais fanáticos.

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Foto: pxhere

Estava eu posto em sossego em minha volta das férias quando deparo com a notícia de que o colombiano que no momento esquenta a cadeira de ministro da Educação do Brasil quer todo mundo cantando o Hino Nacional nas escolas, com hasteamento da Bandeira e outros salamaleques, pelo menos uma vez por dia. Como se fosse remédio. A pastora Damares, que parece estar se especializando em ser, digamos, espécie de macaca de auditório das receitas do colombiano, replica que é isso mesmo e tal coisa é obrigatória. Os dois disputam o troféu Maluquices do Ano.

 

Ocorre que entre patriotismo e fanatismo há uma boa diferença. De modo geral, comparados conosco, nossos vizinhos são fanáticos. O Chile comemora sua Semana da Pátria com sete dias de festejos nas avenidas centrais das cidades e direito a formidáveis bebedeiras, noite após noite. Os chilenos varam a madrugada, cantando hinos e coisas nem sempre bem comportadas, como canções tradicionais com as letras mudadas para baixa pornografia. Coisa de borrachos. Mas a festa é muito boa. Tem parrilhadas e empanadas para ninguém botar defeito. Recomendo a todos. Aliás, é no mesmo mês da Semana da Pátria brasileira, um pouco depois da nossa.

 

Os americanos são fanáticos por sua bandeira, dão de dez no que sentimos pela nossa. Não há casa, não há trailer, não há barraca seja lá onde for, que não tenha uma bandeira dos EUA, mesmo que minúscula. Para eles, holding the flag is taking care of the nation. Um sentimento que não temos nem de longe por aqui. E a bandeira nacional não aparece só na Semana da Pátria dos EUA, mas dia por dia, o ano inteiro, em todas as fachadas, jardins e no alto dos edifícios.

 

Não sei como é na Colômbia, de onde surgiu o atual ministro da Educação brasileiro. Mas ele está disposto a criar, por aqui, alguma coisa parecida com o culto chileno e norte-americano aos símbolos nacionais. Não vai colar. Nem nos quartéis se faz metade do estardalhaço pelo 7 de setembro, o 15 de novembro e o 19 de novembro (nosso Dia da Bandeira, sabiam?). Temos ojeriza a tais exageros. Preferimos bater tambor durante um mês ou dois no Carnaval.

 

O que o colombiano quer as escolas deixaram de fazer há muitas décadas. Nem na última ditadura fizeram. Quando eu era menino, aluno do Instituto de Educação de Porto Alegre, nos anos 50, muitas professoras nem sabiam cantar direito o Hino Nacional e não havia os recursos que hoje existem para ajudar a cantar certo as estrofes da segunda parte, um desafio e tanto para os alunos e para elas também. A embolada era geral. De modo que só arriscavam a perfilar os alunos para o Hino Nacional nas solenidades mais importantes, como o dia de abertura das aulas, no começo de março, no Dia do Índio, na abertura da Semana da Pátria e no 19 de novembro. Se não me engano, no Dia da Árvore, o 21 de setembro, quando plantávamos mudas nos jardins do colégio, também se cantava o Hino Nacional. E era só.

 

Para não dar confusão nem vexame, a professora de canto orfeônico regia a tropa. Ela, sim, sabia de cor e salteado o Hino e puxava o coro dos tatibitates. Agora me lembro que de vez em quando íamos todos para o auditório, uma vez por mês, se tanto, cantar hinos e canções do folclore gaúcho. Era lá que aprendíamos as letras, que eram distribuídas em folhetos impressos e guardávamos para usar nas lições. O Pezinho e a Chimarrita, entre outras, revezavam com o Hino Nacional, o da Bandeira e o da Independência.

 

Nunca passou pela cabeça de ninguém, em perfeito estado de saúde mental e psíquica, submeter os alunos e as professoras a rituais diários de tortura patriótica, como quer o colombiano, que em seu ofício pede encarecidamente que as professoras filmem os alunos cantando e mandem excertos dos filmes por whats para o Ministério, como prova do atendimento de tão elevado pedido. As cópias devem ir acompanhadas da data, do nome da escola e das professoras responsáveis pelas solenidades. Os alunos devem estar bem visíveis.

 

Alguém precisa avisar ao colombiano que escola não é quartel. Espero que um general do Palácio do Planalto – são dezenas – chame o ministro e lhe explique como são as coisas por aqui. Não precisamos dessas demonstrações de amor escandaloso pela pátria amada. Acho que é por sermos grandes por natureza, e não porque sejamos melhores. Aliás, estamos entre os piores do mundo, se considerarmos o PIB per capita e o IDH.

 

A Colômbia é bem menor que o Estado do Amazonas. Não chega ao tamanho do Pará. Talvez por isso tenha necessidade de enaltecer-se acima do permitido pelo bom senso. O Chile é, com perdão da palavra, porque adoro o país, uma linguiça com cerca de 200 quilômetros de largura nos trechos más anchos, como eles dizem. É compreensível que exaltem ao extremo seu amor pátrio, porque se não o fizerem bastante, os vizinhos podem esquecê-los ou empurrá-los para o mar.

 

Viva Chile, viva México, viva la Madre de Diós y nuestro Señor Jesus Cristo – são gritos que, se um brasileiro der em versão tupiniquim, leva um balde de água fria na cabeça para acordar da ressaca ou vai para o manicômio em camisa de força. Está perto disto o lema bolsonarista do Deus Acima de Todos, que o colombiano replicou em seu ofício. Muito semelhante, no espírito, aos arroubos de Nicolás Maduro pedindo a proteção de Nuestro Señor Jesus Cristo em sua recente tertúlia bolivariana para explicar, durante uma hora e meia, por que prefere os venezuelanos morrendo de fome e doença a ver caminhões carregados de comida e remédios atravessarem as fronteiras do Brasil e da Colômbia em direção à Venezuela.

 

O colombiano do Ministério da Educação brasileiro está nessa. Logo mais, se não for parado, vai pedir que rezem missa antes das aulas.

 

Nelson Merlin

Editor e diretor de Redação em jornais de São Paulo, Rio de Janeiro e Paraná

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