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07 Mar 2019 20h40

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Prazer pela escória

O que tem a ver um ladrão assassino com a posse de um general na chefia de Itaipu? Nada a ver, para quem tem bom senso e sabe a diferença entre Golden Shower e Silêncio de Ouro.

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Foto: umnews

O ex-deputado do baixo clero e da bala, agora presidente da República, parece ter prazer em se juntar à escória da humanidade. Mesmo quando não precisa e não tem nada a ver, expressa sua predileção pelo rebotalho da espécie.

 

Exceto os ricos herdeiros, todos no Paraguai querem ver Alfredo Stroessner pelas costas, in memoriam. Rematado ladrão dos cofres públicos paraguaios, pedófilo que mantinha um harém de meninas pobres para delas se servir até completarem 12 anos de idade, quando então eram dispensadas e o plantel renovado, o sujeito foi agraciado com a maior usina hidrelétrica do mundo a custo zero e levou para casa um saco de dólares cheio até a boca – propina do governo brasileiro –, para que aceitasse de bom grado o empreendimento. Anos mais tarde, em 1989, caído de podre, foi acolhido como asilado político por lídimo representante da ditadura brasileira “convertido” ao MDB, então ocupando o mais alto cargo da República. Uma forma de agradecimento em dobro.

 

Nada disso importa. Para o atual presidente, o corrupto e pedófilo ditador paraguaio era um estadista.

 

Por que? A explicação está no próprio voto proferido na cassação do mandato presidencial da incompetente e desmiolada gerentona/economista Dilma Roussef. Lá está, gravado para sempre, o elogio fanático ao torturador coronel Brilhante Ulstra, que brilhou à frente das masmorras do Doi-Codi paulista – onde passei uma noite e um dia angustiantes, em 1970.

 

Stroessner também era torturador.

 

É o que basta para o infame deputado da bala. Seu panteão de heróis, por isso mesmo, é imenso. Em rápida revista, pode-se mencionar Pilatos, Nero, Calígula, dezenas de papas nos 400 anos da Inquisição, Hitler, Mussolini, Franco, Salazar, Stalin, Pol Pot, a dinastia Kim na Coréia do Norte, o haitiano Papa Doc, seu filho Baby Doc, o africano Idi Amin Dada, o chileno Pinochet e muitos outros, todos torturadores e assassinos. Não pus nenhum norte-americano na lista, mas foi lá, nos quartéis da grande democracia do Norte, que os coronéis Ulstra da vida, espalhados por toda a América Latina, diplomaram-se na arte de torturar sem deixar marcas, para o caso de a vítima sobreviver.

 

A menção a Pilatos não é uma provocação. É um fato. O chefe romano na Judéia, como se sabe, foi quem autorizou torturar e matar Jesus, por exigência dos altos sacerdotes judeus. O que diria o biltre deputado da bala a respeito? Que aplaude a tortura e morte de Jesus? Ou que não são todos os torturadores que abraça, mas “apenas alguns”? O Ulstra sim, mas o Pilatos/Sinédrio não? Qual a diferença? Para a alta cúpula do Sinédrio – o STF dos antigos israelitas, formado por dezenas de sumo-sacerdotes – e do governo romano da Judéia, Jesus era um subversivo que ameaçava a estabilidade religiosa e política de toda a região. Torturar e matá-los, como ato exemplar, era a praxe para manter a ordem militar e social.

 

É um sintoma das preferências paranoicas do ex-deputado da bala e hoje presidente da República nunca falar em Jesus, mas em Deus. É porque, se falasse em Jesus, teria de condenar os torturadores do Mestre. Melhor falar em Deus, uma válvula de escape supostamente mais segura. Mas será que o Deus por ele sempre invocado é o mesmo Deus dos cristãos, dos judeus, muçulmanos, budistas, o “Pai do Céu” de todas as religiões? Como se pode falar em Deus, e nele crer, e ao mesmo tempo defender a tortura e os torturadores? Para o bananeiro travestido de capitão, pode. Seu deus permite. E isso só é possível porque o deus de todo biltre é o próprio biltre.

E assim, sem os limites impostos pela moral, a ética e a sanidade, o ex-deputado da bala desanda a propagar elogios aos seus heróis, arribados por ele do estrume que deixaram em seu rastro por esta vida. Só são boa companhia para os que os veneram, eis que feitos da mesma massa que os define.

 

PS – O episódio, deplorável sob todos os aspectos, em que divulgou via twiter, a milhões de crianças, jovens e adultos, atos obscenos no carnaval é uma ilustração patética do que escrevi acima. Seu gosto pelo bas fond não tem limites.

 

Nelson Merlin

Editor e diretor de Redação em jornais de São Paulo, Rio de Janeiro e Paraná

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