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13 Mar 2019 21h37

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O homem bomba

O atual presidente prova a cada dia que não precisa de oposição: ele é o maior opositor de si mesmo e de seu governo. E mostra uma capacidade fora do comum de se auto-desmoralizar.

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Foto: depositphoto

Democracia sem democracia parece ser o regime dos sonhos psicóticos do ex-capitão que o Exército pretendia expulsar por insanidade 30 anos atrás. Só não o fez porque o indivíduo elegeu-se vereador no Rio de Janeiro, a cidade que elege qualquer um que suba num poste e se autoproclame o salvador das galinhas.

 

Sua fala diante dos almirantes, dias atrás, no Rio de Janeiro é a de um desequilibrado solto num bazar de cristais. Todo almirante, general, brigadeiro e daí para baixo, até o soldado raso e o recruta zero, sabe que cada um é funcionário fardado do governo, seu patrão, cujo poder emana do povo e em seu nome é exercido – como rezam, com essas ou outras palavras, todas as Constituições democráticas do mundo. É a primeira linha que se escreve numa Constituição. Não tem como não ler ou ignorar.

 

Isso é assim mesmo depois de golpes militares, explicados pelos golpistas como emergência nacional para restabelecer a democracia ameaçada de destruição. Se é vero ou não, o povo fica sabendo logo depois. Mas mesmo se vira uma ditadura, nenhum ditador ousa rasurar a Constituição para jogar a frase fora. Pois a primeira coisa que faz é jurar que fará a vontade do povo, custe o que custar.

 

Portanto, em tempos de paz as forças armadas, a rigor, não são garantidoras de nada, exceto as fronteiras, o espaço aéreo e o mar territorial. São reserva de força bélica, nada mais. Sem uma guerra interna ou externa, são de pouca serventia, a não ser que o Estado, para economizar, escale a tropa para construir estradas, pontes e casas populares. Não seria má ideia, nestes tempos bicudos. E acho que até fariam de bom grado, para mostrar que não servem somente para pesar no orçamento nacional. Mas dizer a elas que a democracia depende delas, pois podem derrubar o governo a hora que quiserem, ou é conversa de maluco ou de mal intencionado tentando insuflá-las à subversão da ordem política vigente.

 

A frase é mais uma das violações do atual presidente aos termos da Constituição, e ocorre logo após ter disseminado pelas redes sociais vídeo pornográfico mostrando dois malucos, como ele, soltando a franga no Carnaval. O que ele queria – atacar o Carnaval como uma festa pornô que dá vazão a sátiras e deboches mil, incluindo o presidente da República, se o faz por merecer – virou meme, rodou o mundo e rendeu-lhe críticas pesadas por toda parte.

 

Sem se dar conta, porque insano não se dá conta de nada, o ocupante de plantão da Presidência da República tornou-se garoto propaganda do site pornô – até aquele momento frequentado somente por 92 visitantes assíduos, entre os quais, supostamente, ele mesmo, o presidente da nação. Ofendeu a dignidade do cargo, o decoro da função e a liturgia do mandato. Portou-se com a mesma indecência essencial que levou os dois malucos do vídeo a soltar a franga em público – e agora agradecem, penhorados, a ajuda do presidente para popularizar o site, coisa que não estavam conseguindo sozinhos.

 

Se eles podem, em termos, fazer o que quiserem, desafiando as penas da lei, porque em público, o presidente da República não pode jamais. Sua fala é seu ato e o comedimento, a discrição e o respeito à nação são seus mínimos deveres. Coisa que até agora não apareceu ninguém para enfiar-lhe cabeça adentro. O mínimo que deveria fazer era pedir desculpas à nação e seus 3 milhões de seguidores no twiter. Em vez disso, aparece com a mesma cara de sempre, olhando para cima como se estivesse procurando laranjas nas nuvens.

 

Nesse passo, em breve teremos o cargo vago, como vaticinou, antes da posse, o ex-presidente José Sarney. Não é se teremos vacância, mas quando. Como diria um filho do capitão, não é preciso sequer um deputado de oposição para derrubá-lo com um discurso ácido. Ele mesmo se autodestrói após o fim de cada postagem.

 

Nelson Merlin

Editor e diretor de Redação em jornais de São Paulo, Rio de janeiro e Paraná

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