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13 Mar 2019 22h01

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Os laranjais e o sal amargo

Há uma receita infalível para acabar com os laranjais indesejados. Um copo de sal amargo diluído em água resolve na hora problemas de intoxicação e até de perda da memória.

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Foto: daj

Uma vez, quando eu era pequeno, minha avó italiana trouxe da Serra um saco de laranja do céu. Deliciosas. Laranja do céu é o nome que dão no Rio Grande à laranja lima, docinha demais. Em apenas um dia de minhas férias na casa deles, comemos metade do saco – eu, minha prima e meu primo. Era um sábado, e no domingo acordei com o corpo cheio de urticárias, o rosto inchado, a boca seca, a urina mais amarela que a bandeira nacional.

 

Era cedo, umas 6 da manhã, e o Nono e a Nona se preparavam para ir à missa das oito. Quando me viram, cancelaram a missa matutina e a transferiram para a das 11. O Nono preparou um copo de sal amargo para eu tomar de um gole só. A gororoba me levou correndo para o banheiro cinco minutos depois, mas foi um santo remédio: as urticárias desapareceram quase por completo, o rosto desinchou e eu pude ir com eles à missa das onze.

 

Estou contando essa história pensando em três laranjais: o da minha avó, que só dava laranja da boa, e os do ministro do Turismo nas Minas Gerais e do deputado 01, também chamado Flávio, no Rio de Janeiro. Esses dois não dão laranjas de verdade, como se sabe. Dão sacos de dinheiro que vão não se sabe bem para onde, mas uma parte era para o papa do 01 e acabou indo para a conta bancária da madrasta, sob a alegação de que o papa não tinha tempo de ir sacar o dinheiro no banco.

 

Noves fora, ficou a impressão de que o dinheirinho era uma mixaria e não valia a pena nem contar. Pra que esquentar a cabeça com R$ 40 mil reais, não é mesmo general Heleno? Mas logo depois, ficamos sabendo que só nos últimos quatro anos foram 7 milhões e meio de reais, comprovadamente movimentados pelo laranja do 01, que vinha a ser o próprio chefe de gabinete do mesmo 01.

 

Agora, por seu depoimento escrito à Polícia Federal, ficamos sabendo também que o chefe de gabinete era tão competente no ofício que movimentava a dinheirama sem o inquilino do gabinete saber. Putz! E o fazia para aumentar o plantel de aspones do big boss, isto é, pegava até dois terços do salário do pessoal fixo, parece que eram uns 25 caras, e despejava a bufunfa, informalmente, no bolso de uma tropa de aspones, na base de 4 por um. Quer dizer, fez o milagre dos pães do Sermão da Montanha, em que Jesus pegou uns poucos pãezinhos adormecidos e os transformou em um carregamento de pão fresco para alimentar a multidão que o assistia.

 

E tudo isso sem o inquilino do gabinete saber!

 

Mas o milagre bíblico não tem nada a ver com o milagre do Queiroz. O desse é uma tramoia muito conhecida nos legislativos do país afora e se destina a desviar dinheiro público para o bolso do inquilino do gabinete, via mordidas avantajadas nos salários do pessoal fixo. Para encobrir a trapaça, o chefe de gabinete do 01 quer que todo mundo acredite que o dinheiro era uma vaquinha mensal dos funcionários para investimentos que o Queiroz fazia comprando carros estropiados e baratos, reformados em seguida e vendidos por uma baba logo depois.

 

Por exemplo, comprava por 5 mil um Fusca caindo aos pedaços, dava um “tapa” nele e o revendia por 10 mil no mês seguinte. Todo mundo corria para comprar. Não se sabe onde ele poderia arrumar tanto Fusca, porque só no último ano teriam sido 240 Fuscas para chegar ao R$ 1,2 milhão atípicos que o Coaf pegou em sua conta bancária – absolutamente incompatíveis com sua renda, em torno de 20 mil mensais brutos pelos serviços de chefia do gabinete, mais o que recebe como PM reformado, que não é grande coisa.

 

Mesmo se fossem carros bem melhores, digamos uma penca de Mercedes 1.8 com 15 anos de uso, por exemplo, o Queiroz precisaria ter comprado 30 deles por 20 mil e os revendido por 40 mil para faturar o R$ 1,2 milhão, sem botar um tostão em reforma. Brilho, só no cuspe. O Queiroz pensa que na Polícia Federal só tem bobo.

 

E foi tudo assim, sem nota fiscal, multas, IPVA, licenciamento, emplacamento, o escambau. Limpinho da silva. Eu se fosse o delegado mandava servir para ele um balde de sal amargo. As urticárias não estão aparentes, embora seu rosto pareça um tanto inchado. Mas, de qualquer forma, o purgante faria uma boa limpeza.

 

Quanto ao laranjal de Minas, parece também que o ministro precisa de uma pipa de sal amargo, eis que nem se lembra de nada do que aconteceu. É dose pra elefante, mas quando se come tanta laranja que até a memória vai para o saco, pode até precisar de reforço. Não sei se o ministro é religioso, como outros, mas eu recomendaria também uma porção de Ave Marias e Padre Nossos, rezadas em voz alta, de joelhos no genuflexório em cima de grãos de milho, por duas horas seguidas.

 

Todos os dias, até desembuchar.

 

Nelson Merlin

Editor e diretor de Redação em jornais de São Paulo, Rio de Janeiro e Paraná

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